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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Tendências para o futuro: os próximos 20 anos

Eu não acredito em previsões. A história é possibilidade e não certeza. Mas isso não quer dizer que não seja possível projetar cenários futuros prováveis a partir das tendências atuais, considerando que uma série de acasos e escolhas de sujeitos individuais e coletivos podem mudar os rumos estabelecidos como mais prováveis no momento da análise. Por entender a história como possibilidade também acredito ser válido o exercício da análise contrafactual para o passado, apoiada nas tendências e escolhas que estiveram efetivamente colocadas para os homens e mulheres que vieram antes de nós. Se existe destino, ele é a confirmação de uma possibilidade dentre outras tantas colocadas num dado momento e que se afirmou a partir de escolhas que foram feitas no curso de uma vida humana ou de uma época histórica. É com base nesses pressupostos que inicio essa conversa.
Em primeiro lugar, estamos vivendo o desfecho da trajetória de uma geração de jovens. Os agora adultos que acabam de abandonar a juventude e chegam aos seus 30 anos, tiveram seu batismo na política com o plebiscito popular contra a ALCA, as manifestações contra a Guerra do Iraque e o Fórum  Social Mundial e o seu momento decisivo no Brasil com as Jornadas de Junho de 2013; começaram os seus combates influenciados pelas manifestações anti-globalização e pelas insurreições na América Latina no início do século XXI e assumiram uma identidade mais definida  e um protagonismo real a partir da Revolução Egípcia e da Revolução Islandesa, sendo marcada pelo uso da internet como ferramenta de mobilização e as ocupações como principal método de luta (ocupações de praças públicas, de escolas, de universidades, etc).
Nós estamos vivendo ainda uma ressaca de um momento de enorme euforia e de conquistas simbólicas importantes no Brasil. Pela primeira vez em nossa história foi eleito um partido de esquerda e um líder operário para a presidência da República, tivemos num curto intervalo de tempo a Copa do Mundo e as Olimpíadas em nosso país e a aprovação de leis em favor da juventude, dos negros e mulheres, mesmo que esses setores continuem a ser vítimas do Estado brasileiro, mas, apesar dessas considerações, estamos diante de uma oportunidade  histórica perdida: a derrota e os limites enquanto esteve no poder da Frente Popular, que tinha como forças principais, a maior parte do tempo, grupos de esquerda e de centro-esquerda no Parlamento, no governo e na sociedade civil, como o PT, o PCdoB, o PSB, o PDT, a CUT, a UNE, o MST, e dos setores à direita apoiou-se principalmente no PL/PRB e no PMDB; o surgimento com a posterior estagnação de uma central sindical independente (a CSP-CONLUTAS) com uma direção trotskista (o PSTU); e o surgimento de um novo partido anticapitalista (PSOL) com um peso eleitoral importante, mas sem perspectivas de superação da Frente Popular, tendo, na prática, o projeto não declarado mas efetivo pelas escolhas políticas feitas de construção de uma Frente Popular mais à esquerda. O cenário atual sinaliza para uma derrota estratégica. A tendência de afirmação do totalitarismo de mercado sob a égide da indústria cultural e da consolidação da sociedade de consumo que prevalece nos países mais desenvolvidos é a tendência mais forte aqui também, mas se expressando de forma mais complexa, na medida em que convive com a miséria e com a superexploração. No entanto, a tendência ultraconservadora na política, que se afirmou como reação à esquerdização das massas num primeiro momento e se consolidou diante da frustração das expectativas dos trabalhadores diante dos limites do governo petista, um governo economicista mas não propriamente reformista, deve ser igualmente derrotada. A afirmação da consciência democrática diante da formação de mais de uma geração sob a democracia liberal, sendo esse período democrático mais longo que a nossa ditadura mais duradoura (a ditadura militar), impossibilita um projeto de direita de ditadura civil ou militar, sendo o mais provável a construção de um regime bonapartista que combine o Estado Policial com a democracia de massa. Aliás, a alternativa bonapartista se justifica exatamente pela destruição mútua das forças à esquerda e à direita e pelo equilíbrio catastrófico de forças que se estabeleceu e que tende a se prolongar no tempo. Na história até a natureza cumpre o seu papel. Sendo todos os homens mortais, a velha geração que apoiou o golpe militar de 1964 irá em breve morrer de velhice, boa parte de seus membros não deve demorar muito para morrer, levando à substituição do militarismo fascista pelo fundamentalismo cristão como principal força política conservadora a partir do crescimento das igrejas evangélicas com lideranças fundamentalistas nas cidades brasileiras e a forte presença desses setores nos meios de comunicação de massa. Esse setor já é e será mais ainda no futuro o principal ponto de apoio de um governo bonapartista apoiado na legitimação democrática das urnas.
No campo da esquerda e dos movimentos sociais, também é possível arriscar alguns palpites sobre a possível evolução de alguns movimentos e correntes de pensamento. O Trotskismo é uma corrente político-ideológica que exerce influência sobre uma parcela significativa da juventude estudantil desde a década de 1970 e na intelectualidade desde a década de 1920. O crescimento das correntes trotskistas em militância e aparição pública no período de Frente Popular foi relativamente significativo. Houve um inegável crescimento político do trotskismo no início do século XXI no Brasil e no mundo. Mas já é possível ver sinais de retrocesso político com as derrotas das principais lutas desse ascenso revolucionário que acompanhou a crise econômica mundial. O trotskismo era a última  grande corrente política do marxismo no movimento de massas. Depois da degeneração e superação da social-democracia e da degeneração do bolchevismo em stalinismo e da destruição do aparato stalinista internacional liderado pela burocracia soviética, a outra tendência surgida do seio tanto da social-democracia revolucionária quanto do bolchevismo-leninista que dela nasceu e que com ela rompeu, o trotskismo, parecia ter, finalmente, o caminho aberto para dirigir as revoluções do nosso tempo, mas quis a história que os anos de marginalidade política limitassem drasticamente suas possibilidades de crescimento e que o neoliberalismo fosse um fenômeno ideológico mais profundo que se esperava, abortando a possibilidade histórica de uma revolução socialista democrática e internacionalista. Porém, a persistência do movimento trotskista não terá sido em vão. Muitos passaram por suas fileiras por décadas e muitos mais na última década. A tendência é que se torne uma força no ambiente cultural futuro, na arte, na literatura, na comunicação (internet e jornalismo) e na educação (especialmente no ensino básico), com presença e influência significativas na nossa sociedade, podendo, quem sabe, em outras condições históricas e sociais, tornar-se uma força política com capacidade real de lutar pelo poder.
O anarquismo ressurgiu na política brasileira de forma significativa na sua versão black bloc a partir das Jornadas de Junho de 2013. A derrota desse movimento já é bastante clara. Mas deixou sementes de rebeldia. É provável a afirmação e o crescimento do anarquismo no ciberativismo nos próximos anos. Também tende a se tornar uma força social no ambiente cultural futuro, com uma presença um pouco menor mas considerável que o trotskismo nas artes em geral, na literatura, na comunicação (especialmente na internet) e na educação básica. Existe ainda a possibilidade de surgimento de uma Contracultura no futuro de forte inspiração anarquista e do pós-modernismo progressista.
Outra tendência política relevante na atualidade e para o futuro é o marxismo gramsciano. Essa tendência deve se tornar hegemônica nos partidos de esquerda e na esquerda como um todo no presente e no futuro próximo. Tendência de crescimento na Academia, no meio universitário, nas áreas de História e Ciências Sociais principalmente, rivalizando com o pós-modernismo.
O pós-modernismo tende a se tornar hegemônico nos movimentos sociais, rivalizando nos sindicatos e movimento estudantil com os trotskistas, os anarquistas e os gramscianos,e dominando os movimentos negro, de mulheres, LGBT, tendo um caráter progressista mas não marxista ou anarquista; o pós-modernismo progressista irá, em breve, se tornar majoritário nos movimentos sociais. O pós-modernismo, progressista ou reacionário, de esquerda ou de direita, deve afirmar sua hegemonia na Academia em todas as áreas de Humanas, pelo menos, mesmo que o pensamento tradicional de esquerda com teses mais ou menos modernizantes seja atuante e barulhento o suficiente para dar visibilidade à crítica ao pensamento pós-moderno.
Na educação, a tendência é que as descobertas da neurociência e a teoria psicológica das inteligências múltiplas exerçam forte influência nas práticas de ensino e nas teorias pedagógicas num futuro próximo.
E esse é o mundo que se abre para a geração do meu filho. Desde já, me desculpo por não ter conseguido fazer melhor, mas prometo seguir no combate e talvez reverter algumas das tendências que considero mais sinistras, mais sombrias para a humanidade, para o meu país, para a minha cidade e para a minha classe. Mas é isso que minha razão me revela. Como olho para a realidade como um jogador de xadrez que observa as possíveis movimentações e alternativas e respostas a elas de forma objetiva, não posso oferecer nada além do que uma análise meio observação e alguma coisa de cálculo de probabilidades, e talvez com alguma dose de intuição. No entanto, como acredito que a vontade joga um papel relevante na história humana, faço dessa quase previsão uma forma de agir sobre o futuro também, porque quando prevemos já fazemos o futuro, porque passamos a lutar no presente para confirmar ou reverter aquilo que prevemos. Esse é o segredo mais profundo do impulso de prever que os homens de todos os tempos e lugares sempre tiveram; é sempre uma forma de tentar controlar o futuro; no fundo é só mais um terreno da luta da vontade contra o destino. Pois que assim seja!

Rafael Rossi

domingo, 5 de junho de 2016

ARTHUR


Quando o seu coração bateu,
o meu bateu mais forte.
Quando ouvi o seu coração pela primeira vez,
o meu coração se encheu de alegria.
O nosso primeiro encontro foi amor à primeira vista.
Eu falei com você e você reconheceu minha voz.
Meu bebê, meu amor.
O fruto do amor mais puro e verdadeiro.
Já veio ao mundo irradiando alegria.
E quando você sorri, tudo se ilumina.
Sempre oferece um sorriso para alegrar
aqueles que já se acostumaram a não viver
toda a beleza da vida.
Você se aventura sem medo,
mas quando sente medo me abraça.
Se preciso, você chora.
E não aceita menos do que o que deseja.
Mas aceita o carinho de quem ama.
E até faz o choro virar riso;
basta uma brincadeira ou um colo
de quem te ama desde que você era só um coração.
E quando eu canto pra você,
você se acalma e sonha.
E como o Sol todo dia você acorda
com a luz do seu sorriso
convidando quem estiver perto de você a brincar. 


Rafael Rossi

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Crítica do filme X-MEN: Apocalypse

Crítica do filme X-MEN: Apocalypse:
Como fiz com o filme X-MEN: Dias de um futuro esquecido, escrevo sobre algumas coisas que pude observar no filme, mas sem entrar em detalhes para não tirar a graça pra quem ainda vai ver. Em primeiro lugar, é importante dizer que a nova trilogia de X-MEN: X-MEN: Primeira Classe, X-MEN: Dias de um futuro esquecido e X-MEN: Apocalypse é muito superior à primeira trilogia de X-MEN: X-MEN 1, 2 e 3. Na primeira trilogia a história estava centrada na disputa de projetos entre os dois grupos mutantes: os X-MEN e a Irmandade de Mutantes, a disputa entre Xavier e Magneto. Já nos últimos filmes se abriu o leque aparecendo os personagens do Clube do Inferno, Magneto e Mística (os dois líderes da Irmandade de Mutantes), as Sentinelas e agora Apocalypse e tudo indica que o próximo vilão será o Senhor Sinistro, como sugere a cena final depois dos créditos. O que possibilitou essa revolução nos filmes dos X-MEN foi X-MEN: Primeira Classe, até agora o melhor roteiro, que relacionou a história dos mutantes a eventos históricos de uma maneira que nenhum outro conseguiu, transcendendo o gênero de filme de herói. Dias de um futuro esquecido se apoiou num grande sucesso dos quadrinhos e em alguns dos melhores episódios da série animada clássica. Apocalypse é o maior vilão dos X-MEN e não tinha como não ser uma boa história. En Sabah Nur é o primeiro mutante, um megalomaníaco que pensa ser um deus e que defende a sobrevivência dos mais fortes. Diferente de Sinistro que é um cientista de estilo nazista, que tem uma leitura do darwinismo que o levou defender a criação através de experiências científicas de uma raça mutante pura e superior e de Magneto que é um líder de estilo messiânico mas que deseja uma sociedade livre para os mutantes, Apocalypse é um fanático que entende a seleção dos mais fortes pela luta e cultua a morte e a destruição, ele é a encarnação do mal. Esse filme resolveu todas as contradições pelas mudanças de diretor desde X-MEN 3 e fez referências a todos os outros filmes. Magneto se mostrou de novo um herói trágico e não um vilão. A história de Magneto aparece por completo; ele aparece sempre ligado aos setores oprimidos, de judeu do campo de concentração de Auschwitz a operário de fábrica no Leste Europeu, vivendo sob os regimes totalitários do nazismo e do stalinismo. Magneto sempre sofre tragédias, faz escolhas erradas e comete erros, mas se posiciona pelo que é justo e combate o verdadeiro mal. A ausência de Cable, o escolhido para derrotar o Apocalypse, foi solucionada colocando-se alguém que tem os mesmos poderes que ele para enfrentar o Apocalypse em seu lugar. E ainda se fez referência a um quadrinho clássico que é A Origem da Arma X. É um filme que vale a pena assistir. Destaque para a atuação da atriz que interpretou a Psylocke. Em suas aparições, chegava a roubar a cena, tendo sido melhor do que a Mística, que era a líder dos X-MEN nesse filme. Como era de se esperar, Charles Xavier, Magneto e Apocalypse, que representam os principais projetos políticos para a raça mutante - convivência pacífica com os humanos, luta pela liberdade e supremacia dos mutantes e a sobrevivência dos mais fortes entre os mutantes, foram os personagens que mais se destacaram.

Rafael Rossi

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Currículo profissional atualizado - maio de 2016

RAFAEL ALVES ROSSI
Brasileiro, casado, 32 anos.
Rua Souza Aguiar, 22, apto 506, Méier – Rio de Janeiro – RJ.
Telefone: (21) 3830-1019 / 99446-0453/ 994902365/E-mail: rafael_lit@yahoo.com.br.

FORMAÇÃO
·         Graduado em Bacharelado e Licenciatura em História. UFF, conclusão em 2008.
·         Mestrado em História Social Antiga pela Universidade Federal Fluminense, orientador Ciro Flamarion Santana Cardoso, conclusão em 2011.
·         Especialização em Filosofia Moderna e Contemporânea pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, orientador Vinicius de Carvalho Monteiro, conclusão em 2013.
·          
EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL
·         Professor de História efetivo da Prefeitura do Rio de Janeiro (em exercício-admissão 2008).
·         Professor de História efetivo da Prefeitura de Itaguaí (em exercício-admissão 2012).

QUALIFICAÇÕES E ATIVIDADES PROFISSIONAIS
·         Participação do VIII Encontro dos Professores “Compartilhando e Construindo Ideias” da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Itaguaí como palestrante do tema “O papel da indústria cultural na alienação do tempo livre: o atrofiamento da fantasia e a mercantilização do ócio”, em 2015.
·         Apresentação de comunicação no XXI Ciclo de Debates em História Antiga “Tempo e História”, realizado pelo Laboratório de História Antiga (LHIA) do Instituto de História (IH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com trabalho cujo tema era “As Revoltas de Escravos na Roma Antiga e o seu Impacto sobre a Ideologia e a Política da Classe Dominante nos Séculos II a.C. a I d.C.: os Casos da Primeira Guerra Servil da Sicília e da Revolta de Espártaco”, em 2011.
·         Coordenação de uma mesa de comunicações no XXI Ciclo de Debates em História Antiga “Tempo e Espaço”, realizado pelo LHIA do Instituto de História da UFRJ, em 2011.
·         Parecerista ad hoc para o volume 4, número 1, da Revista Roda da Fortuna.2015.
·         Curso de Inglês (CLC Idiomas-UERJ,carga horária de 300h, conclusão em 2001).
·         Curso de Francês (FAETEC-CETEP/Quintino, carga horária de 240h, conclusão em 2011).
·         Participação do Seminário Nacional “Os Desafios da Dívida Externa e Interna para a Sociedade Civil”, realizado pela Rede Jubileu Sul/Brasil – Auditoria Cidadã da Dívida, no Centro Cultural da Universidade Cândido Mendes, em 2005.
·         Participação como ouvinte da II Jornada de História: Discussão da BNCC, realizada pela ANPUH-Rio, na Universidade Veiga de Almeida, em 2016.
·         Participação no XIII Congresso Ordinário do SEPE-RJ – “Escola não é fábrica, aluno não é mercadoria, educação não é negócio”, nos dias 26, 27 e 28 de maio de 2011.

PUBLICAÇÕES
·         Luta de Classes na Antiguidade. 1.ed. Rio de Janeiro: Multifoco, 2015.(Artigos de História).
·         Poemas de Pedra e de Rosas. 1. ed. Rio de Janeiro: Clube de Autores, 2013. (Antologia poética).
·    O “Príncipe Tirano” e a “Democracia Militar” no projeto de construção de um Império Universal de Alexandre, O Grande e de Júlio César. Revista História e Luta de Classes, v.9, p.85-90, 2013.
·         Poema “Portas”. Jornal Novidades – Méier e Grande Méier. Ano VII – Edição 81, p.9. Março, 2016.



domingo, 27 de março de 2016

A CRISE SOCIAL DO SÉCULO XXI

A degradação moral da família invadida pelo valor de troca e pela lógica utilitária entre seus membros, a perda da aura de proteção comunitária das comunidades de vizinhos e a desagregação social das classes sociais com a perda do sentimento de classe, da identidade sociocultural e unidade política levam os indivíduos agora atomizados a se tornarem presa fácil do totalitarismo do mercado, do neofascismo infiltrado nas instituições estatais mesmo em regimes democráticos e do fundamentalismo religioso crescente nas instituições eclesiásticas. O indivíduo tem sua alma deformada pelas agências extrafamiliares que sustentam a ordem social vigente, especialmente a indústria cultural, mas todas as instituições, mesmo as tradicionais, mesmo os grupos sociais básicos, a família e a classe social, refletem a dinâmica narcisista e individualista da personalidade sob a égide do capitalismo em sua fase imperialista-totalitária e a lógica da vigilância e controle social da ordem judiciária-policial do Estado Policial que emerge das democracias de massa. A degeneração das lideranças políticas é mais uma expressão do atual estágio de declínio da civilização capitalista e a fascistização das organizações da sociedade civil é parte desse processo em que indivíduos desamparados se unem numa massa fascista em busca de salvação, de solução mágica para a situação de ruptura do tecido social. As reflexões filosóficas e cientificas e as manifestações políticas e estéticas devem ter como preocupação e como meta o indivíduo autônomo, a família como reserva de resistência ética e a luta social como luta de classes e de construção da classe trabalhadora em classe para si como elementos fundamentais no processo de emancipação humana e desalienação política e social. As agências psicológicas da sociedade, a família e a igreja, não tem mais qualquer contradição com as determinações do aparato burocrático de Estado e com os imperativos econômicos do capitalismo. A tecnocracia no poder impõe suas prescrições a todos. A não contradição é base de qualquer ordem social totalitária. As instituições sociais que formavam os indivíduos para o capitalismo tinham algum grau de autonomia e de contradição em relação ao Estado burguês e ao sistema econômico capitalista. Na época contemporânea isso deixa de existir e os sujeitos se tornam indivíduos massificados de uma sociedade de massa. Esse exército de fantasmas completa a sua metamorfose de sujeito em objeto, de ser humano em produtor-consumidor na sociedade de consumo dirigida por uma moral hedonista e por uma ideologia consumista e individualista a serviço da manutenção da ordem vigente, do estabelecimento da servidão voluntária no lugar da luta pela superação dialética desse estágio da civilização. Essa massa compõe ainda a opinião pública despolitizada formada pela televisão e pelo rádio e estimulada a se expressar ativamente por meio das redes sociais, na internet, contra a opinião pública politizada, democrática e racional formada pelos sindicatos, entidades estudantis e universidades. A sociedade industrial governada pelo ritmo da máquina e a vida alienada das grandes cidades produzem psicoses nos indivíduos e até mesmo psicoses coletivas como o fascismo, que irrompe de forma violenta e libera a energia destrutiva reprimida pela civilização e pela razão, dando lugar a manifestações de sadismo e tomando a forma de tática de guerra civil contra a classe trabalhadora e suas organizações. Essa ideologia tem lugar primeiro no seio da classe média, classe social que fornece os quadros políticos, administrativos e intelectuais tanto do proletariado quanto da burguesia, mas que, enquanto classe, é conservadora e sem perspectivas. A juventude de classe média passa a agir como os elementos marginais da sociedade, como o lumpesinato, e ataca de forma paranoica aqueles sobre os quais projetam seus demônios. Esse processo, no entanto, não fica restrito à classe média e tende a se expandir para o conjunto da sociedade na medida em que avança o processo de rompimento dos laços de solidariedade entre os grupos sociais e a atomização da sociedade destrói qualquer sentimento de empatia. A crise social do século XXI é a crise dos grupos sociais que sustentam a sociedade e que cada vez mais mergulham na ordem burocrática, autoritária e egoísta, que leva ao bonapartismo, ao cesarismo, como solução para a situação histórica de equilíbrio catastrófico entre as forças políticas e sociais em luta e a morte da utopia, aprisionando os homens num presente de pesadelo sem fim. Somente o resgate do humanismo, da utopia, da solidariedade e o estabelecimento de relações sociais profundamente livres e éticas entre os membros conscientes das sociedades humanas poderá reverter o caos social que se instala no Brasil, mas que segue uma dinâmica global, com manifestações mais ou menos graves no mundo inteiro. Essas novas relações éticas e afetivas devem ser totalmente livres do autoritarismo policialesco e do valor de troca, assim poderão se configurar nas bases de um novo contrato social, de um Estado racional e democrático que funcione pela democracia direta dos trabalhadores e com a eleição dos melhores membros da comunidade para exercer a administração pública e uma constituição estruturada a partir do bem comum como objetivo do governo e da vontade soberana do povo, caminhando assim em direção ao reino da liberdade.

segunda-feira, 21 de março de 2016

O Golpe Envergonhado: É sempre em nome da democracia

 O golpe de 1964 foi em nome da democracia e contra o totalitarismo comunista; para impedir que o Brasil virasse uma nova Cuba. Em 2016, mesma paranoia e mentiras do mesmo tipo. Agora é para impedir que o Brasil vire uma Venezuela, o novo fantasma latino-americano do imperialismo estadunidense. A estupidez desse tipo de afirmação é assustadora. O processo político que vive o Brasil e o governo petista são muito mais parecidos com o governo do Uruguai do que com os governos do bloco chavista (Venezuela, Equador e Bolívia). Além disso, o grau de concessões que o governo do PT está disposto a fazer refuta o radicalismo de esquerda que a direita fascista e que a direita liberal derrotada nas eleições tentam colar nele. Lula falou no ato do dia 18 de março para os movimentos sociais, mas o seu recado era para a burguesia; ao mesmo tempo que dizia que era de novo o Lulinha Paz e Amor em referência a política de conciliação de classes do seu governo, mostrava sua capacidade de mobilizar as massas. Dilma manchou sua trajetória e desonrou seu passado de luta ao sancionar a lei antiterrorismo, permitindo que a nova geração de militantes de esquerda seja enquadrada como terrorista pelos governos e Justiça reacionários do mesmo modo que ela foi na ditadura militar. E mesmo assim, a Rede Globo nascida na ditadura e a massa fascista que ocupa as ruas para derrubá-la não recuaram da tentativa de golpe de Estado, um golpe ainda mais envergonhado, porque a intervenção militar do passado instaurou um regime de terror no país, um golpe judiciário-parlamentar apoiado por bandos fascistas e por uma turba que pensa a política a partir do que lhe é ditado pela grande mídia e pelas igrejas na sociedade civil e pela repressão policial, judicial e militar do aparelho de Estado. Os partidos burgueses se movimentam para retirar os direitos sociais da nossa Constituição ao mesmo tempo em que instauram um Estado Policial.

sábado, 19 de março de 2016

O perigo da ascensão do fascismo no Brasil

O conservador e o fascista não são a mesma coisa.O conservador tem uma moral, uma moral arcaica, mas de qualquer modo tem certos princípios e até mesmo consideração pelas pessoas (mesmo que não respeite seus valores e comportamentos mais livres e progressistas); é o caso de um religioso, por exemplo, que tenha ideias antiquadas, mas que acredita na compaixão e na solidariedade. O fascista é algo bem diferente. O conservador pode agir com violência, mas é um ato excepcional. O fascista é sádico, paranoico e narcisista, ele sente prazer em causar dor no outro, principalmente naquele que ele demoniza, o objeto de projeção dos seus medos, preconceitos e vícios. O fundamentalista religioso, apesar de se basear em valores e ideias conservadoras, parece ter um modo de agir muito mais parecido com o do fascista. O conservador enxerga a vida pela ótica do senso comum e se baseia nas tradições. A classe média, a classe social que mais fornece quadros políticos, intelectuais e administrativos tanto para a burguesia, a classe dominante, a classe dos capitalistas, quanto para o proletariado e suas organizações, também é, enquanto classe, a mais frágil de todas, a mais sem perspectiva histórica e de futuro, a que mais luta pela conservação do seu modo de vida, a mais conservadora de todas. A burguesia é progressista e revolucionária no campo da economia e do desenvolvimento técnico, elevando o grau de riqueza e o nível tecnológico das sociedades contemporâneas, mesmo que seja conservadora no campo da política. Os setores mais pobres da classe trabalhadora lutam para modificar o seu modo de vida, por dentro do sistema ou contra ele, portanto, tende a ser mais abertos a opções políticas que proponham uma melhoria (mudança) no seu modo de vida. Também há uma diferença entre aqueles elementos da classe trabalhadora que desempenham o seu trabalho de forma coletiva ou que façam parte de categorias organizadas politicamente e de massa e os elementos da classe que desempenham o seu trabalho de forma individualizada, de forma autônoma, etc; estes últimos tendem a posições mais conservadoras, mais próximas do senso comum do que aqueles que pertencem a categorias que fazem greves, tem seus planos de carreira e para as quais os interesses individuais e os interesses coletivos se misturam, são interdependentes. Em momentos de crise política, econômica e social, elementos de classe média, especialmente pequeno-burgueses, pequenos proprietários, ou os filhos dessa pequena burguesia, essa massa ociosa que é parte da juventude de classe média, passam a se comportar como o lumpesinato, como marginais, como a ralé. Aquelas características e atitudes que geralmente são próprias de indivíduos de grupos sociais excluídos e brutalizados pela ausência completa de serviços públicos decentes, emprego e renda, isto é, pela ausência de civilização, passam a ser encontradas em setores de classe média também, geralmente em indivíduos menos intelectualizados (o que não quer dizer de baixa escolaridade, podem ser mão de obra qualificada e não ter o mínimo de refinamento intelectual, sendo destituídos dos valores humanistas que fundaram a moderna civilização ocidental, por mais que esses valores possam, muitas vezes, entrar em contradição com a prática daqueles que dominam a nossa sociedade). Esse fenômeno está se manifestando hoje com fascistas atacando verbalmente ou fisicamente, de forma individual ou organizada, aqueles que mal ou bem ainda representam a tradição iluminista na política e nas atividades intelectuais, assim como aqueles que representam os valores democráticos da igualdade e da pluralidade. O avanço desse processo constitui um fato grave. Um fascista não é uma pessoa respeitadora das regras sociais, que acredita num contrato social, como um conservador de direita ou um progressista de esquerda. A extrema-direita é reacionária, irracionalista, sádica e os elementos que ela mobiliza são altamente narcisistas e autoritários. O apoio passivo de uma massa ignorante a um setor minoritário mas ativo das massas, a massa fascista, pode mergulhar o Brasil numa situação de terra sem lei. Como revolucionário, não tenho nenhum apreço pela institucionalidade burguesa, mesmo o chamado Estado Democrático de Direito, que é mais uma das formas de dominação social dos capitalistas sobre os trabalhadores, mas, na medida em que não existe nenhuma possibilidade de revolução socialista num futuro próximo, a república democrática burguesa é o melhor regime político para a livre organização dos trabalhadores na defesa de seus interesses imediatos e históricos. Os fascistas também costumam dar sustentação a regimes políticos dominados por tecnocratas, especialistas que exercem suas funções conforme lhes é ordenado, que só cumprem ordens, sem maiores considerações éticas, sem fazer exame de consciência, e que gerenciam o Estado e a sociedade de modo a tornar toda a vida humana administrada e vigiada, seja no espaço público seja na intimidade. O comportamento lumpen da massa fascista e a atitude fria e alienada do tecnocrata são a própria face do terror totalitário. Uma sociedade como a nossa que, na vida social, está à beira da ruptura do tecido social, com vários elementos de barbárie crescendo a cada dia, e que, na vida política, vive um equilíbrio catastrófico entre duas forças políticas equivalentes, dois campos burocráticos que arrastam o conjunto da sociedade para o abismo numa disputa sem lei e sem limites pelo aparato de Estado, corre um sério risco com a ascensão dessa horda fascista. A turba que sai às ruas clamando por justiça a qualquer preço é formada pelos setores de classe média mais despolitizados da sociedade e que até ontem odiavam política; é a ascensão dos apolíticos na política, mas não se politizando, e sim atuando no sentido da desqualificação da política e do combate à ação política consciente e organizada. A opinião pública despolitizada criada pelas grandes emissoras de televisão ganha corpo com as redes sociais e passa a ter um papel ativo com a internet no sentido de atacar a já diminuta opinião pública politizada, educada no debate público democrático e racional a partir de instituições políticas, culturais e sociais, como partidos políticos, movimentos sociais, entidades estudantis, sindicatos, universidades. Esse é o quadro social grave que vivemos hoje.