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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

DEUSES, HERÓIS E SUPER-HERÓIS



O universo de deuses e heróis da mitologia grega serviu de inspiração para as narrativas que serão apresentadas em sala de aula. Para os gregos antigos, a imortalidade traçava uma fronteira entre os deuses e os homens. Os deuses gregos eram imortais. De acordo com o historiador Jean-Pierre Vernant, “é pela voz dos poetas que o mundo dos deuses, em sua distância e sua estranheza, é apresentado aos humanos”. As narrativas de Homero e de Hesíodo sobre os seres divinos funcionaram como modelos de referência para os autores que vieram depois deles. As obras da poesia épica serviram como instrumentos de conservação e comunicação do saber. Diz Vernant: “A atividade literária, que prolonga e modifica, pelo recurso à escrita, uma tradição antiquíssima de poesia oral, ocupa um lugar central na vida social e espiritual da Grécia”. Tanto a poesia épica quanto os contos populares estiveram ligados no início a uma tradição oral. As histórias mais antigas já contadas têm suas origens em sociedades que ainda não conheciam a escrita. E até hoje, o ato de contar histórias, reais ou lendárias, se faz por meio da oralidade e na presença do outro, na maioria das vezes.
As histórias mais famosas de todos os tempos foram (e são ainda) as histórias de heróis. Vernant diz que os heróis “pertencem à espécie dos homens e, como tais, conheceram os sofrimentos e a morte. Mas, por toda uma série de traços, distinguem-se, até na morte, da multidão dos defuntos comuns. Viveram numa época que constitui, para os gregos, o ‘antigo tempo’ já acabado e no qual os homens eram diferentes daquilo que são hoje: maiores, mais fortes, mais belos”. Alguma semelhança com os nossos super-heróis de hoje? Talvez uma: nas nossas histórias de super-heróis, eles são nossos contemporâneos. Mas, tirando isso, são como os heróis da mitologia grega, belos, fortes, mais inteligentes e melhores que os demais mortais em vários aspectos. Continuando sobre esse tema do herói, escreve Vernant: “Mesmo sendo homens, sob vários pontos de vista esses ancestrais aparecem mais próximos dos deuses, menos separados do divino do que a humanidade atual. Nesse tempo passado, os deuses ainda se misturavam de bom grado aos mortais, convidavam-se para a casa destes, comiam às suas mesas em refeições comuns, insinuavam-se até mesmo às suas camas para unir-se a eles e, no cruzamento das duas raças, a perecível e a imortal, gerar belos filhos. Os personagens heroicos cujos nomes sobreviveram e cujo culto era celebrado em seus túmulos apresentam-se muito frequentemente como o fruto desses encontros amorosos entre divindades e humanos dos dois sexos”. Desse modo, os chamados semideuses eram filhos de mortais com deuses e deusas. Alguns homens também podiam ser elevados ao status de herói. Além das figuras lendárias, dos primeiros fundadores de colônias e de personagens que adquiriram um valor simbólico exemplar aos olhos dos habitantes de uma determinada cidade grega, havia também heróis anônimos, como escreve Vernant: “Existem heróis anônimos, designados apenas pelo nome do lugar onde foi estabelecido seu túmulo; é o caso do herói de Maratona”.
A Mulher-Maravilha talvez seja a super-heroína mais inspirada nas narrativas da mitologia grega. No livro de Matthew Manning, a Mulher-Maravilha é descrita assim: “Metade humana e metade deusa, Mulher-Maravilha é filha de Zeus e Hipólita – rainha das Amazonas – e foi treinada desde o seu nascimento para ser uma representante de Themyscira para o mundo humano”. Quer dizer, a super-heroína é um exemplo clássico de mito recriado para a modernidade, é uma atualização do mito das amazonas para a época contemporânea. Não foi por acaso que a Mulher-Maravilha se tornou um símbolo feminista nos dias de hoje. Ela faz questão de lembrar que as mulheres não são o sexo frágil que o discurso dominante afirma. As míticas amazonas são guerreiras habilidosas e corajosas. A semideusa é o maior exemplo de adaptação dos mitos gregos para as narrativas heroicas de nosso tempo.
Mas os super-heróis do presente não permaneceram completamente presos aos paradigmas clássicos. O grupo de heróis mutantes, X-Men, que contou com Chris Claremont por mais de quinze anos como argumentista das histórias desses super-heróis tem um tom bem diferente, inclusive nas definições do que é ser herói e do que é ser vilão. Em uma entrevista publicada em 1995 na revista X-Men no Brasil, o autor fala sobre o personagem Magneto: “Magneto não pode ser definido em termos de herói ou vilão. Ele é um homem com um projeto de vida, uma ideologia. Ele é alguém que, se você quiser uma analogia mais contemporânea, está para Malcolm X [...] assim como Charles Xavier está para Martin Luther King [...]. Ele não confia no mundo. Ele crê que confiar na humanidade é pedir para ser traído por ela. [...] Da perspectiva de alguém que passou sua juventude num campo de extermínio em Auschwitz, ele é extraordinariamente amargo e cético”. Sendo assim, numa sociedade tão complexa como a nossa, a complexidade e a ambiguidade dos personagens são cada vez mais acentuadas.
Considerando que a moda dos filmes de super-heróis tem levado uma massa gigantesca de pessoas aos cinemas no mundo todo, batendo esses filmes todos os recordes de bilheteria, é preciso trazer isso para a sala de aula, e é nesse contexto que as narrativas que vamos ver sobre os mitos gregos e romanos e sobre algumas das maiores personalidades históricas da Grécia e da Roma antigas se inserem.
Referências:
CLAREMONT, Chris. “Entrevista com Chris Claremont”. In: X-MEN n° 77: O fim de uma era, pp.48-52. São Paulo: Editora Abril Jovem, 1995.
MANNING, Matthew K. O Mundo da Mulher-Maravilha. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 2017.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Religião na Grécia Antiga. Tradução: Joana Angélica D´Avila Melo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.




MITOS E NARRATIVAS



A contadora de histórias Bia Bedran escreveu, certa vez, o seguinte: “Contando sua própria história e a do mundo, o homem vem se utilizando da narrativa como um recurso vital e fundamental. Sem ela a sociabilidade e mesmo a consciência de quem somos não seria possível. O conto é uma memória da comunidade, em que encontramos lugares diferentes de olhar e ler o mundo ao praticarmos a arte da convivência”. Quem nunca parou para ouvir histórias de outro tempo contadas pelos avós ou outras pessoas mais velhas? Isso é uma forma de se conectar o passado e de compreender o presente a partir do relato dessa testemunha ocular dos fatos que se encontra diante de nós na figura da pessoa mais velha. Nós mesmos estamos sempre contando histórias, para nossos amigos, familiares e até pessoas estranhas que conhecemos na rua ou na internet. Nesse sentido, é pela comunicação que o homem se torna esse animal social que somos.
O arqueólogo Pedro Paulo Funari escreveu em um de seus livros sobre a arte de contar histórias e a narrativa histórica: “De fato, o homem é um animal que gosta de contar (e de ouvir) histórias. O que são os romances e contos, as telenovelas e os filmes, os desenhos animados e as peças de teatro, se não narrativas? Também o passado só adquire forma como uma narrativa, em um entrelaçar de dados e argumentos sobre a sucessão dos acontecimentos. Quanto mais recuamos no passado, tanto maior será a importância do relato, quase como se fosse uma viagem, imaginada e contada pelos estudiosos”. Nesse sentido, construímos nossa identidade, damos sentido às nossas vidas, direção aos nossos desejos, compreendemos os outros e a nós mesmos por meio das várias narrativas que lemos, ouvimos e vemos o tempo todo. Quem nunca viu um filme que lhe marcou? Quem nunca ouviu uma música que fez com que se emocionasse? A vida é assim, essas várias histórias que lemos, vemos e ouvimos fazem parte de nós e definem quem somos. Também é próprio dos seres humanos querer compartilhar suas experiências; colocamos nossas fotos em redes sociais, falamos com os colegas aquilo que fizemos no final de semana e até podemos inventar histórias. De fato, muitas das narrativas mais marcantes de nossas vidas são histórias inventadas. As obras de ficção do cinema e da TV marcaram nossa infância, adolescência e juventude. Nós sofremos e nos alegramos junto com os personagens dessas histórias. Nós torcemos por eles, porque nos identificamos com os seus desafios, sofrimentos e tragédias. Mas a imaginação não fica restrita à arte e às histórias inventadas. Também a ciência e a filosofia contam, muitas vezes, com uma boa dose de imaginação. Quando estudamos sobre a pré-história da humanidade ou sobre os povos da Antiguidade, temos que tentar imaginar como viviam, como eram, como era o seu cotidiano, eles não tiravam selfies, não escreviam sobre suas vidas, não as pessoas comuns, não como nós fazemos hoje. Tudo o que podemos fazer é, a partir dos vestígios deixados por eles, imaginar como viviam, amavam e lutavam. Travamos um diálogo vivo com aqueles que morreram mudos, que foram silenciados pela força irresistível do tempo. Somos nós, com nossa imaginação e com nossas perguntas, que impedimos que eles virem pó, que não permitimos que desapareçam enquanto escoam as areias do tempo. É preciso tentar ver a imagem dos que viveram num tempo sem fotos nem filmes, enquanto ouvimos as histórias sobre eles; histórias de gladiadores, escravos, piratas, soldados e heróis. Tudo isso que nos encanta hoje ao vermos esses mesmos personagens transformados pela magia da fantasia na tela do cinema.
No século XIX, Thomas Bulfinch escreveu O Livro da Mitologia, que em seu prefácio dizia: “Se considerarmos que os únicos ramos úteis do conhecimento são aqueles que concorrem para o aumento de nosso patrimônio material ou nosso status social, então a Mitologia não pode ser apresentada nessa categoria”. Ou seja, o conhecimento da mitologia não é prático, não é útil num sentido econômico, ninguém pode se tornar mais rico com esse conhecimento e ouso estender isso ao conhecimento da história. Se vocês conhecerem alguém que ficou rico pesquisando ou ensinando História, por favor, me apresentem, que eu quero aprender como se faz. Mas Bulfinch prossegue: “Sem o conhecimento da Mitologia, boa parte de nossa elegante literatura não pode ser compreendida e apreciada”. Estendo isso aos filmes. Temos hoje filmes sobre a Guerra de Troia e o herói Aquiles, filmes sobre Hércules, o poderoso filho de Zeus, nas mais variadas versões. E temos ainda filmes adolescentes sobre meninos e meninas semideuses nos dias atuais, como Percy Jackson e o ladrão de raios. Ou ainda a Mulher-Maravilha, a amazona, uma mulher guerreira, nascida sob a influência da mitologia grega e transformada em super-heroína. Os quadrinhos, e agora o cinema com os filmes baseados nas histórias em quadrinhos, estão cheios de super-heróis saídos diretamente da mitologia, como o poderoso Thor, da Marvel. Essas narrativas fantásticas nos inspiram e dão, muitas vezes, significado às nossas vidas.

Referências:
BEDRAN, Bia. A arte de cantar e contar histórias: narrativas orais e processos criativos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
BULFINCH, Thomas. O Livro da Mitologia: A Idade da Fábula. Tradução: Luciano Alves Meira. 1.ed. São Paulo: Martin Claret, 2013.
FUNARI, Pedro Paulo; NOELLI, Francisco Silva. Pré-história do Brasil. 4.ed. São Paulo: Contexto, 2015. – (Repensando a História).



POR QUE APRENDER HISTÓRIA?



Dizia o historiador Marc Bloch: “O passado é, por definição, um dado que coisa alguma pode modificar. Mas o conhecimento do passado é coisa em progresso, que ininterruptamente se transforma e se aperfeiçoa”. Novos métodos de estudo, novas descobertas e novas interpretações estão sempre nos esclarecendo melhor sobre o passado e até reescrevendo o passado até então conhecido. Não podemos projetar no passado aquilo que nele não existiu, mas podemos sempre rever a forma como o nosso passado, a nossa memória e a nossa identidade enquanto povo, sociedade ou classe social são pensados.
Marc Bloch dizia ainda que “os exploradores do passado não são homens absolutamente livres. É seu tirano o passado, que só lhes consente saberem de si o que ele próprio, propositalmente ou não, lhes confiou”. O passado das várias civilizações que existiram na história da humanidade é cheio de lacunas. A História é como um quebra-cabeças com peças faltando. Por isso que apesar de ser uma ciência e que qualquer afirmação sobre a história dos homens deva ser fruto de investigação, comparação, pesquisa, reflexão, é impossível negar que uma boa dose de imaginação é necessária para penetrar no conhecimento do passado para compreender o nosso presente, que é o resultado desse passado. Temos que pensar o que pode ter acontecido, comparar com processos semelhantes que sejam melhor conhecidos e pensar as possibilidades de futuro que existiram no passado.
Diz um provérbio árabe: “Os homens parecem-se mais com o seu tempo que com os seus pais”. A cada geração, a forma de ver o mundo e de agir sobre ele se modificam e a visão que se tem do passado, as questões que chamam mais a nossa atenção e os julgamentos que fazemos a respeito das escolhas e das ações dos homens e mulheres que viveram antes de nós também. E essa também é uma razão para que o conhecimento histórico esteja sempre mudando. Compartilhamos com outras pessoas que nasceram e cresceram na mesma época que nós experiências, somos parte de uma experiência coletiva que marca o caráter da nossa geração. O nosso gosto musical, o que gostamos de fazer nas nossas horas de lazer e até os nossos projetos de vida dependem do contexto social e histórico em que vivemos e isso influencia também a forma como vemos o passado e o que esperamos do futuro.
Mas somos parte de uma jornada humana que começou muito antes de nós. Não brotamos como que por mágica da terra com o sentido de unicamente comprar o que é produzido e oferecido para nós nas propagandas que vemos na televisão, nos vários anúncios na internet e nos outdoors. Somos filhos, netos, bisnetos, somos parte de uma tradição familiar, política, religiosa. Os que vieram antes de nós foram parte de igrejas, partidos políticos, escolas de samba, sindicatos, associações de moradores ou de qualquer outra instituição, comunidade ou grupo social. E nós somos parte de seu legado. Nós herdamos o que os seres humanos do passado sonharam, criaram, construíram ou destruíram. Nós somos parte de uma história que nos atravessa, que começa antes do nosso nascimento e se estende até depois de nossa morte. Conhecer o presente e o passado das sociedades humanas e da nossa sociedade em especial é também um exercício de autoconhecimento.
Por tudo isso aprender História é fundamental. A História é uma ciência humana que nos faz enxergar as diferenças e o que há em comum entre os homens ao longo da nossa marcha sobre a Terra.

Referência:
BLOCH, Marc. Introdução à História. 2ª edição. Tradução: Maria Manuel Miguel e Rui Grácio. Lisboa: Publicações Europa-América, 1974.





terça-feira, 2 de outubro de 2018

BRASIL: ENTRE O RETROCESSO HISTÓRICO E A RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA


BRASIL: ENTRE O RETROCESSO HISTÓRICO E A RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA

            A radicalização do processo político no Brasil chegou ao seu ponto culminante: de um lado estão todas as forças democráticas, de esquerda, populares, reformistas e revolucionárias, marxistas, pós-modernas, progressistas, nacionalistas, desenvolvimentistas, das lutas contra as opressões e de outro está o fascismo na sua face mais bárbara, a última linha de defesa de um capitalismo dependente, decadente e de uma classe de capitalistas completamente subserviente ao imperialismo estadunidense.
            No início dos anos 2000, as democracias liberais entraram em crise junto com a crise do neoliberalismo. A direita tradicional foi varrida do poder em toda a América Latina. Governos nacionalistas e de Frente Popular chegaram ao poder ao mesmo tempo pela primeira vez desde o fim das ditaduras militares no continente. As massas de trabalhadores, estudantes, indígenas, camponeses e sem-terra colocaram os partidos burgueses tradicionais contra as cordas. Os velhos políticos da classe dominante foram obrigados a negociar com aqueles que antes tinham sido presos, espancados e torturados por eles, combatidos politicamente de todas as maneiras. A força da mobilização impôs uma enorme derrota à direita nos países mais importantes e mais ricos da América do Sul. O projeto imperialista da ALCA foi enterrado. Os trabalhadores latino-americanos podiam respirar aliviados, pelo menos momentaneamente, ao escaparem dos planos de escravização total da força de trabalho do continente pelos Estados Unidos da América. Mas para se manter no poder, essas forças progressistas que chegaram lá por revoluções como no Equador, insurreições como na Bolívia, e mobilizações de massas que culminaram numa vitória eleitoral humilhante para a direita como no Brasil, buscaram a conciliação de classes. No Brasil, esse projeto, capitaneado pelo PT, levou a que muitos de seus quadros se vissem envolvidos nas velhas práticas de corrupção da velha direita tradicional. Isso acabou abrindo um espaço político à esquerda dos grandes partidos de esquerda de massas, como o que ocorreu no Brasil, com a formação de uma nova central sindical, a CONLUTAS, que tem como sua direção majoritária um partido trotskista, o PSTU, e a formação de um novo partido anticapitalista, o PSOL. Num primeiro momento o que se viu foi uma esquerdização das massas, a tal ponto da terceira via em 2006 ser representada pela oposição de esquerda com a candidatura de Heloísa Helena à presidência da República pela Frente de Esquerda (PSOL-PSTU-PCB). O segundo mandato de Lula, o de maior estabilidade política e também o que lhe rendeu a maior popularidade da história como líder político, também preparou o caminho para o abismo. Os acordos com forças conservadores e fundamentalistas armava uma bomba relógio que explodiria em algum momento no futuro. A preservação desses setores e a permissão para que eles crescessem livremente como erva daninha levou à expansão de um reacionarismo em nossa cultura que desprezava até a velha cordialidade do brasileiro. O fundamentalismo religioso cresceu sob as asas da Frente Popular, com a aliança do PT com o PL/PRB, partido da Igreja Universal, e outros setores desse tipo.
            As conquistas sociais do governo Lula são inegáveis. Embora o bolsa família não seja o projeto Fome Zero esboçado na campanha de 2002, ele de fato garantiu o mínimo de dignidade à maioria da população, afinal, “quem tem fome tem pressa”, e eu acrescentaria: e quem nunca sentiu fome não pode julgar. A educação também teve avanços, como a expansão de bolsas de pesquisa, de vagas nas universidades, construção de escolas técnicas federais, mais verbas para a educação a partir do FUNDEB, embora não tenha sido um processo livre de contradições, basta ver a influência do movimento empresarial Todos pela Educação sobre os projetos desenvolvidos pelo MEC no segundo governo Lula, surgindo daí o Plano de Metas e o IDEB, por exemplo, claros ataques à autonomia docente. Além disso, o empresariado se favoreceu na educação e em outros setores das parcerias público-privadas, que encheram os bolsos do grande empresariado. Enquanto havia crescimento econômico, todos ganhavam uma parte, os mais ricos a maior fatia, e as contradições sociais permaneceram amortecidas. Mesmo com a crise capitalista mundial, o governo petista conseguiu administrar bem as contradições sociais, fazendo com que o Estado pagasse a conta dos grandes empresários, beneficiados com isenções fiscais e ajudas dos bancos estatais. Com a eleição de Dilma, o governo de Frente Popular assumiu um caráter mais bonapartista e menos conciliador. As alianças com a direita se ampliaram, mas as negociações com os representantes das classes empresarial e proletária foram reduzidas e substituídas por atos administrativos. As negociações com os movimentos sociais eram escassas. Os governos estaduais aliados, como o PMDB do Rio de Janeiro, reprimiam movimentos de trabalhadores sem que fossem censurados pelo governo federal. E o próprio governo federal intensificou o uso das Forças Armadas na segurança pública e mesmo na repressão a protestos. Em 2013, o governo que conseguia conter o movimento de massas e por isso era tolerado pela classe dominante, mostrou-se incapaz de conter as Jornadas de Junho. Esse era o início da tragédia.

JORNADAS DE JUNHO: AVANÇOS E CONTRADIÇÕES

            As Jornadas de Junho tiveram início com a juventude na luta contra o aumento das passagens de ônibus. O MPL (Movimento Passe Livre) foi a ponta de lança daquele movimento, ficando afastada, portanto, a hipótese de um protesto que teve um caráter fascista, manipulado e pró-imperialista desde o princípio. A cronologia dos fatos é importante. No dia 13 de junho a repressão aos protestos foi brutal. A Polícia Militar reprimiu os manifestantes no Rio de Janeiro e em São Paulo com uma truculência digna da ditadura militar. No dia 17 de junho de 2013 ocorreu a primeira grande manifestação democrática desde as Diretas. Cerca de 250 mil pessoas foram às ruas, 100 mil só no Rio de Janeiro. Emergiram várias demandas, várias bandeiras (embora muitos dos manifestantes impedissem que as bandeiras de partidos fossem levantadas, fato que seria habilmente usado pela classe dominante posteriormente), mas a maior delas foi contra a repressão. É como se os adultos tivessem acordado e tomassem as dores daqueles meninos que apanhavam do aparato repressivo de Estado, enquanto a geração adulta engordava no sofá de frente para a TV. O dia 17 de junho foi, antes de mais nada, um movimento de solidariedade, e isso é uma das coisas mais progressivas que podem existir. As grandes emissoras de TV não conseguiam forjar uma narrativa coerente para interpretar aqueles acontecimentos; os governos ficaram paralisados; as polícias foram neutralizadas. As massas se apropriavam das ruas e diziam para o Estado e a classe dominante que o domina que exigiam dignidade, direitos sociais e mais democracia. No dia 20 de junho, no entanto, a classe dominante já havia conseguido se rearticular e pela primeira vez os agentes do aparato repressivo atuaram abertamente junto com grupos nazifascistas para quebrar a coluna do movimento. A burguesia soltou seus cães da coleira e ordenou que caçassem os militantes de esquerda. As pautas do movimento começaram a ser impostas verticalmente pela Rede Globo e o sentimento antipartido foi alimentado na população pela grande mídia. Nesse quadro, o dia com o maior número de manifestantes nas ruas, mais de 1 milhão, também foi o da mais dura repressão para os movimentos sociais. A partir daquele dia, aquela enorme frente política que se forjou nas ruas, o partido das ruas, rachou e de um lado se situaram as forças de esquerda e de outro a extrema-direita. Ali a extrema-direita começou a disputar as ruas e a hegemonia política na sociedade brasileira. No entanto, a unidade do movimento, em especial com a paralisação nacional do dia 11 de julho de 2013 articulada pelas centrais sindicais, fez com que os atos dos movimentos de esquerda superassem os da extrema-direita, recuperando momentaneamente para a esquerda o monopólio das ruas. Surge em meio a esses protestos a figura do black bloc, expressão das novas formas de organização política dos jovens que não tinham mais na esquerda tradicional uma referência.

O NAUFRÁGIO DO GOLPE PARLAMENTAR: BRASIL NÃO É PARAGUAI

            Uma nova forma de golpe de Estado surgiu na segunda década dos anos 2000: o golpe parlamentar. Mantendo uma aparente legalidade, processos de impeachment absolutamente viciados cumprem o papel de tirar do poder dirigentes de esquerda e de centro-esquerda eleitos pela soberania popular nas urnas, para que a direita tradicional possa voltar ao poder, mesmo que pela porta dos fundos. Foi isso que aconteceu no Paraguai, quando da queda do presidente Fernando Lugo. Tentando reproduzir a fórmula de sucesso no Brasil, a direita liberal e conservadora viu que a sociedade brasileira possui um dos movimentos sindicais e populares mais poderosos do mundo. Tendo vencido Aécio por uma margem apertada de votos e perdendo popularidade rápido ao ceder ao mercado e iniciar a aplicação da política de ajuste fiscal, Dilma foi removida do poder sem razões suficientes para uma medida tão drástica e traumática. O roteiro era claro: colocava-se no poder um governo da direita e da centro-direita puro, que não tivesse que prestar contas aos movimentos sociais, para aplicar as medidas privatizantes e a retirada brutal de direitos sociais em ritmo acelerado. Mas no meio do caminho havia uma pedra. Se nas Jornadas de Junho o protagonismo principal foi dos jovens, na luta contra o governo Temer o movimento sindical foi decisivo. Foi a articulação política das centrais sindicais, CSP-CONLUTAS, CUT, CTB, Força Sindical e outras, que permitiu a realização da maior greve geral de nossa história: 100 anos depois da primeira greve geral no Brasil, a greve geral de 1917, no dia 28 de abril de 2017, ocorreu a maior greve geral da história do Brasil.

A GREVE GERAL DE ABRIL DE 2017 E A DERROTA DO GOVERNO TEMER

            A greve geral contou com a adesão de 40 milhões de pessoas e registrou paralisações em mais de 150 cidades, superando os números das grandes greves gerais da década de 1980. Para quem julgava o movimento sindical morto e o proletariado uma força social e política que pertencia ao passado, a greve geral de 28 de abril serviu para lembrar que aqueles que produzem a riqueza social não estão dispostos a ver suas condições de vida e trabalho reduzidas a níveis próximos daqueles experimentados pela classe trabalhadora no século XIX. O projeto de rapina do patrimônio nacional e de retirada brutal de direitos sociais contou com a forte oposição dos trabalhadores organizados, sindicalizados, muitos de orientação mais progressista e de esquerda, trabalhadores do serviço público e da iniciativa privada, a velha força política e social antagônica aos capitalistas. A contradição entre capital e trabalho se expressou num confronto aberto nas ruas e a polarização da luta de classes alcançou o seu auge. Como resultado desse movimento, a Reforma da Previdência do governo Temer foi enterrada. Temer também acabava de perder sua serventia para o mercado. Se uma governante socialdemocrata não pode segurar o movimento e nem um liberal, quem pode?

A BESTA DO FASCISMO GANHA UM ROSTO

            Como resposta à ineficiência de Michel Temer para aplicar os planos de saque dos recursos naturais e de superexploração da mão de obra brasileira, a classe dominante inventa Bolsonaro. Até então, um político folclórico e representante de um lumpesinato político e social, Bolsonaro é transformado pela burguesia no salvador da pátria. Ainda insegura com essa opção, a maior parte da classe dominante aposta no PSDB velho de guerra, o partido da direita preferido da alta burguesia, mas o governo Temer foi um desastre e todos que o integraram sofreram um enorme desgaste, e isso inclui os maiores partidos da direita tradicional brasileira: o PMDB e o PSDB. Sem alternativas e sem disposição para construir um novo pacto social que envolva um governo de conciliação de classes como no passado, a classe dominante resolve aderir ao fascismo. Se o preço a pagar para abocanhar maiores lucros é o sacrifício da democracia, que assim seja! E é com esse raciocínio que parcela significativa da classe dominante e dos burocratas do Estado, em especial das Forças Armadas, do Judiciário e do Ministério Público, vai com tudo para o caminho do golpe militar. Esse golpe pode ser dado com tanques nas ruas ou de forma gradual como já está acontecendo: generais tutelam o Supremo Tribunal Federal e o Poder Executivo; o estado que demonstrou maior resistência ao projeto golpista, o Rio de Janeiro, sofre uma intervenção militar depois do Carnaval mais politizado em anos, com direito a protestos contra o governo Temer e a Reforma Trabalhista. E é apoiado por esses generais e pelos empresários mais lumpens da burguesia nacional que Bolsonaro chega ao primeiro lugar nas intenções de voto para a presidência da República.

#ELENÃO: O PROTAGONISMO DAS MULHERES

            As redes sociais eram o terreno que os fascistas dominavam. Robôs imperavam no Twitter. Fake News imperavam no Whatsapp. Páginas reacionárias de cunho fascista, racista, homofóbico e machista imperavam no Facebook. No entanto, diante do crescimento eleitoral e político de Bolsonaro e das ameaças dele e de seu vice, general Mourão, aos direitos das mulheres e da comunidade LGBT, surgiram grupos no Facebook contra o líder fascista, o maior deles foi o Mulheres unidas contra Bolsonaro, que mesmo sendo alvo de ataques cibernéticos de adeptos de Bolsonaro chegou a ter mais de 3 milhões de mulheres, e foi desse grupo do Facebook que partiu a organização da manifestação que levou centenas de milhares de pessoas em várias cidades do Brasil e do mundo a ir às ruas contra o machismo, o racismo, a homofobia e contra o fascismo. As pessoas superaram o medo depois de uma onda de ameaças e de agressões e tomaram as ruas e as mulheres foram a vanguarda desse movimento. Alguns dirão que isso deu mais munição ao fascista e emblocou a classe dominante contra os setores explorados e oprimidos, mas o contrário seria esperar sentados pela bondade dos carrascos. Uma coisa nada inteligente de se fazer. O movimento se politizou. Pessoas que não participavam da política foram às ruas contra o fascismo. As mulheres, o setor mais atacado pela chapa do golpe militar, foram maioria nos atos e sua liderança. O sujeito social que lidera essa nova onda de lutas são as mulheres.

O EMBRIÃO DE UM MOVIMENTO ANTIFASCISTA DE MASSAS

            Nós não controlamos o que pode sair dessas eleições. A esquerda e a centro-esquerda se dividiram em várias candidaturas. Talvez se fosse conformada uma chapa de centro-esquerda com Ciro Gomes e o PT a polarização tradicional com o PSDB e o bloco de centro-direita conformado pelos tucanos tivesse se afirmado e Bolsonaro fosse jogado para escanteio. Isso é possível e provável. Mas não parece que a nossa classe dominante esteja disposta a aceitar a derrota nas urnas depois de enveredar pelo caminho do golpe. O fato da esquerda e da centro-esquerda terem sido maioria nos atos do dia 29 de setembro influenciou bastante na escolha da grande mídia por embarcar na candidatura do fascista sem pudores. Alckmin esperava se apropriar do #ELENÃO e ganhar para si a adesão das mulheres contra Bolsonaro. Mas a maior manifestação de mulheres da história do país teve uma clara orientação progressista e mais à esquerda e isso os articuladores do golpe de 2016 não podem aceitar. Preferem ficar com os herdeiros políticos do torturador Ustra e do ditador Médici do que aceitar a soberania popular. Aliás, essa é uma virada interessante. A democracia que entrou em crise no início do século XXI pela aplicação do projeto econômico neoliberal sob a hegemonia política da direita, agora entra em crise por outro motivo: depois de séculos, a democracia volta a ameaçar os interesses da classe dominante. A burguesia perdeu a capacidade de dirigir a sociedade pelos mecanismos da democracia liberal. A guinada bonapartista de boa parte dos donos do poder parece indicar isso. Não podem mais tolerar a soberania popular porque ela se tornou de fato soberana. Nesse sentido, foi um acerto político encher as ruas do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Salvador, de Belo Horizonte, de Nova Iorque, de Lisboa, de Paris contra a extrema-direita, contra o fascismo, forjando um movimento antifascista de massas nas redes sociais e nas ruas com ligações internacionais que servem de força e proteção. A maior manifestação política contra um candidato à presidência antes das eleições entrará para a História. E isso servirá para fortalecer as lutas futuras.

A DISPUTA ELEITORAL AINDA NÃO TERMINOU

            O crescimento em intenções de votos de Bolsonaro após as manifestações, solenemente ignoradas pela grande mídia brasileira e noticiada em detalhes pela imprensa internacional, pode ser expressão de um movimento verdadeiro ou não. Na verdade, não há como saber. Os institutos de pesquisa não são neutros e isso pode ser parte de uma guerra psicológica. Através das pesquisas, os donos do poder constroem profecias autorrealizadas, ou seja, apontando um determinado cenário provável, mas não certo, levam as pessoas a se dirigirem naquela direção. Pode ser essa a estratégia que está em curso, é o mais provável. De todo modo, a política de desconstrução de Bolsonaro e de ampliação de sua rejeição chegou ao limite. Nessa última semana, todos os esforços devem ser para ampliar as intenções de votos de Haddad no eleitorado lulista e de Ciro Gomes no eleitorado mais ao centro (não adianta apelos de voto útil a um e a outro, as candidaturas estão postas e estão no jogo) e de ir pra cima dos maiores colégios eleitorais – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – na reta final e de espremer tudo o que puder na região Nordeste. É o que é possível fazer. De outro lado, é importante nessa reta final divulgar mais as candidaturas ao Parlamento, para deputados estaduais, deputados federais e senadores. Há grandes chances de se eleger parlamentares do PSOL, PSB, PT, PDT e PCdoB em número significativo em meio a essa disputa política, à politização à esquerda nas redes sociais e nas ruas, e diante da crise do governo Temer e do desgaste dos partidos que o compuseram. Caso o pior aconteça e Bolsonaro se eleja, precisaremos de todos os pontos de resistência que pudermos para enfrentar a barbárie fascista.

DITADURA E BOLSONARO: ORDEM AUTORITÁRIA E VELHO OESTE

            A ditadura militar foi reacionária, promoveu assassinatos políticos e torturas, mas o Estado detinha, de certo modo, o monopólio da aplicação da barbárie. Bolsonaro é outro fenômeno, mais semelhante ao nazismo. O tipo de sujeito que se identifica com Bolsonaro não é exatamente um adepto da ordem, mas alguém que quer ter carta branca para xingar os negros, matar pobres, espancar mulheres e homossexuais. A política de distribuir armas para a população por um viés fascista é o contrário do monopólio das força pelo Estado, de uma concepção hobbesiana de um Estado forte para dominar os indivíduos que por si mesmos são lobos uns dos outros; é mais uma política de transformar o Brasil num Velho Oeste em que cada um que acerte as contas com quem lhe ofendeu, lhe agrediu, lhe roubou. Será o país da naturalização dos linchamentos. Quem espera maior segurança com Bolsonaro no poder está redondamente enganado; ele é um agente do caos e seus seguidores mais fiéis são um lumpesinato, a banda podre do aparato de segurança e os indivíduos mais violentos e sádicos da nossa sociedade civil, uma camada de psicopatas no seu nível mais grave, que estão apenas esperando um governo que lhes dê consentimento para agir de maneira brutal e antissocial sem o perigo de sofrer punição.

A RESISTÊNCIA VENCENDO O MEDO

            O assassinato político de Marielle foi um ensaio do que estava por vir. Mas os que cometeram aquele crime esperavam fazer muitos mais em tempo mais curto, mas a resistência foi gigante. O funeral de Marielle foi o maior ato político do ano de 2018 até o acontecimento do #ELENÃO e, com certeza, serviu para preparar nas consciências das mulheres, em especial das mulheres negras, os atos do dia 29 de setembro, dando-lhes a certeza de que se não derrotassem o inimigo, ele não seria gentil, não retribuiria o favor. A luta é dura, mas precisamos resistir. Prudência é mais que bem-vinda. Sabemos como eles agem e não podemos dar munição para o inimigo, afinal, está comprovado que setores autônomos em meio à greve dos caminhoneiros eram orientados por lideranças bolsonaristas via Whatsapp para criar instabilidade política e prejudicar a população, bem diferente de greves legítimas de trabalhadores que não se associam aos fascistas. Nas Jornadas de Junho foram abundantes os agentes infiltrados se fingindo de black blocs. Esses são os homens que riram da destruição do Museu Nacional pelas chamas porque odeiam a ciência, a cultura e a história. Esses são os homens que mataram Marielle mais uma vez ao difamá-la depois de morta. Não podemos esperar nada desses senhores. Por isso, temos que dizer bem alto que nós não temos senhores e que vai ter resistência.

Rafael Rossi


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Visualizações dos blogs

O blog História, Literatura e um Café teve um total de 5856 visualizações, sendo 2691 visualizações de página do Brasil, 1944 dos Estados Unidos, 355 da Rússia, 341 da França, 156 da Ucrânia, 82 da Alemanha, 79 de Portugal, 15 do Egito, 14 da Espanha, 13 da Índia, 1 do Peru. Foram 71 publicações no total até o momento.
O blog História para o Fundamental teve um total de 250 visualizações de página, sendo 157 do Brasil, 51 dos Estados Unidos, 13 da Ucrânia, 6 de Portugal, 6 da Rússia, 3 do Reino Unido, 2 da França, 2 da Irlanda, 2 do Peru, 2 da Polônia. Com um total de 5 publicações e 3 seguidores.
Esses são os meus blogs hoje em atividade.

As estatísticas dos meus extintos blogs são:
Blog Poesia e Revolução - 85053 visualizações de página, 1886 postagens e 25 seguidores.
Blog Spartacus - 8768 visualizações de página, 72 postagens e 4 seguidores.
Blog Depois da Meia-Noite - A Hora do Desespero - 2116 visualizações de página e 51 postagens.
Blog À Flor da Pele - Eros e Beleza - 17902 visualizações de página e 236 postagens.
Blog Catarina, a Gata - 626 visualizações de página e 20 postagens.
Blog Arthur, o Príncipe Plebeu - 342 visualizações de página e 7 postagens.

Carnaval e Política

O texto é polêmico, então tirem "as crianças da sala". O objetivo não é "causar", "lacrar" ou qualquer outra dessas bobagens pós-modernas. Existe uma onda de ataques ideológicos ao Carnaval de rua que vem de todos os lados e algumas vezes sob aparência progressista e contra a qual não é possível ficar omisso.
Em primeiro lugar, é preciso elucidar algumas questões históricas. É verdade que o samba carioca, assim como o jongo do Sudeste, é expressão da cultura negra. O samba carioca tem suas origens na localidade da Pedra do Sal, no Morro da Conceição, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, e é marcado pela resistência cultural das populações removidas pela reforma urbana de Pereira Passos, passando essa população marginalizada a se reunir na região da Cidade Nova, em torno da casa da baiana Tia Ciata. Especificamente sobre os sambas-enredo, eles eram pensados pelo compositor Ismael Silva como formas de comunicação com as massas. O inventário do IPHAN das "Matrizes do Samba no Rio de Janeiro" é um documento que reconhece a importância da cultura negra na vida cultural da cidade do Rio de Janeiro. Desse modo, é inegável que o samba carioca, que dita o ritmo do Carnaval carioca, tem suas origens na cultura negra e que sua preservação, a defesa dessa manifestação cultural e de suas raízes é um ato político.
No estudo que Mikhail Bakhtin fez da cultura popular na Idade Média e no Renascimento ele escreve que os festejos do carnaval ofereciam "uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente, deliberadamente não-oficial, exterior à Igreja e ao Estado". E o autor prossegue: "O princípio cômico que preside aos ritos do carnaval, liberta-os totalmente de qualquer dogmatismo religioso ou eclesiástico, do misticismo, da piedade, e eles são além disso completamente desprovidos de caráter mágico ou encantatório (não pedem nem exigem nada). Ainda mais, certas formas carnavalescas são uma verdadeira paródia do culto religioso. Todas essas formas são decididamente exteriores à Igreja e à religião. Elas pertencem à esfera particular da vida cotidiana". Sendo assim, o Carnaval popular não pede licença a qualquer religião ou ao Estado, ele é a manifestação não-oficial e profana das massas, contendo, segundo Bakhtin, um poderoso elemento de jogo. Numa bela passagem, Bakhtin afirma: "Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade. O carnaval possui um caráter universal, é um estado peculiar do mundo: o seu renascimento e a sua renovação, dos quais participa cada indivíduo. Essa é a própria essência do carnaval, e os que participam dos festejos sentem-no intensamente". O carnaval é uma festa popular que tem suas origens nas saturnais romanas. Citando novamente Bakhtin: "Em resumo, durante o carnaval é a própria vida que representa, e por um certo tempo o jogo se transforma em vida real. Essa é a natureza específica do carnaval, seu modo particular de existência". Aqui se faz necessário resgatar o conceito de jogo e de lúdico, sem o que se torna impossível compreender o carnaval popular. Como escrevi em outro texto, Jean Chateau afasta a atividade lúdica do conceito de diversão. Chateau escreve que o jogo é sério e que não é mero divertimento, aproximando-se a atitude lúdica da atitude estética. De acordo com Jean Chateau, entregando-se ao jogo, à atividade lúdica, é possível abandonar o mundo da necessidade, criar mundos de utopia e realizar-se plenamente. Sendo assim, o Carnaval é a maior expressão do lúdico na nossa existência nesse mundo de alienação. Diz Bakhtin, remetendo o Carnaval à Europa feudal com sua rígida hierarquia social e entendendo o Carnaval como a segunda vida do povo, a sua vida festiva e temporariamente desalienada: "Contrastando com a excepcional hierarquização do regime feudal, com sua extrema compartimentação em estados e corporações na vida diária, esse contato livre e familiar era vivido intensamente e constituía uma parte essencial da visão carnavalesca do mundo. O indivíduo parecia dotado de uma segunda vida que lhe permitia estabelecer relações novas, verdadeiramente humanas, com os seus semelhantes. A alienação desaparecia provisoriamente. O homem tornava a si mesmo e sentia-se um ser humano entre seus semelhantes". Ao contrário do que é difundido pelo senso comum "facebookiano ", o Carnaval não é alienação, é justamente o oposto, ele é a suspensão da realidade do mundo do trabalho alienado e a alegria genuína daqueles que vivem o ano inteiro vergados pela exploração, a alegria de todos os explorados economicamente, oprimidos socialmente e reprimidos politicamente. Em Bakhtin: "Ao contrário da festa oficial, o carnaval era o triunfo de uma espécie de liberação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus. Era a autêntica festa do tempo, a do futuro, das alternâncias e renovações. Opunha-se a toda perpetuação, a todo aperfeiçoamento e regulamentação, apontava para um futuro ainda incompleto". A festa carnavalesca "caracteriza-se, principalmente, pela lógica original das coisas 'ao avesso', 'ao contrário', das permutações constantes do alto e do baixo ('a roda'), da face e do traseiro, e pelas diversas formas de paródias, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões. A segunda vida, o segundo mundo da cultura popular constrói-se de certa forma como paródia da vida ordinária, como um 'mundo ao revés'". Essas citações fizeram-se necessárias por causa da forma como tem sido realizados os debates públicos, totalmente baseados no princípio da doxa, da opinião, quando muito em argumentos de autoridade do tipo "lugar de fala" ou mesmo disputando quem tem o título maior. Mas argumentos racionais e fundamentados passam longe dos debates públicos atuais, que nada têm de democráticos e racionais. 
Como vimos, o Carnaval é uma expressão cultural de caráter popular, uma festa popular de origem europeia que no Rio de Janeiro é marcada por forte presença e influência da cultura negra na música e na dança que presidem o Carnaval carioca. O Carnaval é uma festa dionisíaca, lúdica, profana e não-oficial. É um momento em que fazer de conta e brincar de ser feliz é o que importa. Muitos se surpreenderam com o samba politizado da Paraíso do Tuiuti nesse Carnaval de 2018. Isso só mostra o quanto as pessoas desconhecem o Carnaval, que possui essa dimensão de resistência também. Quando o samba canta "Não sou escravo de nenhum senhor/ Meu Paraíso é meu bastião/ Meu Tuiuti o quilombo da favela/ É sentinela da libertação", ele aponta para a ligação entre a escravidão negra do passado e a escravidão assalariada de todos os trabalhadores pobres do presente e a extrema opressão em que vivem os descendentes dos antigos escravos africanos. A arquibancada do Sambódromo vibrou e cantou não só por remeter a uma memória do passado, mas porque esse passado ainda é presente, presente no racismo, na desigualdade racial e social e na forma da exploração capitalista capitaneada atualmente pelo "vampiro neoliberalista". Mas é importante ter cuidado. A função crítica do Carnaval não reside apenas num conteúdo político de um samba, mas na própria forma. Quando o samba da União da Ilha de 2014 "É brinquedo, é brincadeira, a Ilha vai levantar poeira" convidou todos a brincarem e a lembrarem de como é ser criança, resgatou o que é o Carnaval em sua essência: "Hoje a Ilha vem brincar, amor!/ Vem sorrindo cirandar que eu vou/ Dar meia volta, volta e meia no seu coração/ Ser criança não é brinquedo não! (...) Nesse baú da memória/ São tantas histórias é só escolher/ Desperta, encanta sua alma de infância (...) Perder ou ganhar, ganhar ou perder/ Se conectar, jogar e aprender/ Um super-herói pode ser você/ Vem no reino da ilusão, me dê a sua mão (...)". Aquilo que a gente vive só na ilusão, como sublimação na arte, no Carnaval é experiência concreta e podemos voltar a viver segundo o princípio do jogo, como as crianças. Outro tema importante é o das marchinhas de Carnaval. Algumas marchinhas racistas e homofóbicas foram corretamente criticadas, mas me surpreende que músicas que refletem a situação do trabalhador pobre e seu desespero diante de situações como a de despejo de sua casa (incrível que numa cidade que viveu remoções em massa para as obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas os ouvidos não sejam sensíveis a essa mensagem) passem despercebidas. Quem não conhece "Daqui não saio": "Daqui não saio/ Daqui ninguém me tira/ Daqui não saio/ Daqui ninguém me tira/ Onde é que eu vou morar?/ O senhor tem paciência de esperar!/ Inda mais com quatro filhos/ Onde é que eu vou parar?/ Sei que o senhor/ Tem razão de querer/ A casa pra morar/ Mas onde eu vou ficar?/ Nesse mundo ninguém/ Pede por esperar/ Mas já dizem por aí/ Que a vida vai melhorar". Quem só enxerga alienação no Carnaval não consegue explicar uma marchinha dessas. A cultura popular é marcada por preconceitos sociais também, que não devem ser naturalizados, mas o esforço dialético que muitos fazem para encontrar na cultura de massas, na produção da indústria cultural um potencial crítico não é o mesmo em relação às manifestações culturais genuinamente populares. Nem mesmo a "invasão bárbara" da indústria cultural no Carnaval de rua com blocos temáticos que retiram todo o protagonismo negro da nossa festa carnavalesca, onde se ouve todo tipo de música menos o samba carioca e o jongo, é severamente criticada. O que me faz duvidar das intenções "problematizadoras". Analisar a arte pelo seu conteúdo também é um erro grave no debate sobre cultura e os blocos de caráter diretamente políticos que reúnem basicamente a esquerda universitária tem muito mais um caráter antipopular e sectário do que propriamente conscientizador. Como se pode ver, contradições existem para todo lado.
Sobre a polêmica lançada pelo Catraca Livre acerca das fantasias que podem e que não podem ser usadas. Acredito que ninguém sério e esclarecido reivindique o direito de usar a fantasia de "nega maluca". O site do Catraca Livre explica muito didaticamente a origem dessa fantasia como forma de caricatura dos negros no século XIX, usada pelos homens brancos com o objetivo de satirizar a população negra, ou seja, tem uma intenção clara de inferiorizar os negros do país. Quanto às tradicionais fantasias de índio/índia, cigano/cigana, embora concorde com o fato de serem estereotipadas, não há muito como fugir do estereótipo  neste caso, não é possível ter uma fantasia de indígena para cada etnia. Além do mais, não se trata aqui de uma tentativa de ofender ou de inferiorizar, muito pelo contrário, as pessoas que usam essas fantasias se sentem bonitas, é uma valorização dessas culturas, dentro dos limites de uma festa popular, não se pode exigir um caráter acadêmico de uma festa popular, isso é coisa de quem realmente desconhece a cultura popular de sua cidade e de seu país, na teoria e na prática. Esse debate é mal colocado quando ele joga a responsabilidade para os foliões, quando as fantasias são produzidas por uma indústria. Eu, por exemplo, que já me fantasiei de bate-bola, bruxo, Morte, pirata, já usei adereços de índio e de pirata, sempre comprei, hoje com minha esposa, na infância com minha mãe, as fantasias e tecidos para fantasias numa loja de Madureira em frente à estação de trem. Quem quiser fazer sugestões de fantasias adequadas à referida loja pode ir lá. Os foliões compram de lojas comerciais a produção de uma indústria. Novamente, a militância pós-moderna alivia para as forças do mercado e joga com a mesma lógica de polícia dos costumes do fundamentalismo religioso. É um erro grave, anti-dialético e anti-dialógico, além de essencialmente sectário e descolado da realidade da maioria. Enquanto figuras da indústria cultural são aplaudidas por venderem uma suposta representatividade (e lucrarem com isso) e são consideradas "lacradoras", a cultura popular é atacada sem dó nem piedade. Mesmo as escolas de samba que atuam dentro de uma lógica mercadológica são perdoadas, porque, afinal, ali se trata de arte, porque o tempo todo se faz reverência às manifestações culturais oficiais e se condena como bárbaras as manifestações do povo trabalhador que não se enquadrem plenamente nos seus conceitos e não atendam a seus interesses políticos e sociais. Um ou outro representante da indústria cultural é eventualmente criticado, mas quase sempre de manifestações culturais ainda um tanto marginais, mesmo que já integrando o mercado cultural, como é o caso do funk. Um profundo elitismo se esconde por trás desses debates e um conservadorismo disfarçado por uma retórica progressista. 
O Carnaval é essencialmente político, mas não no sentido do realismo socialista, de tipo stalinista, mas por ser uma expressão da vida ao avesso, desalienada, lúdica. As contradições, os preconceitos, os equívocos devem ser apontados e muitos abolidos. Uma demanda civilizatória absolutamente correta que se expressou nesse Carnaval foi a campanha contra o assédio sexual, em que as mulheres se posicionaram e se organizaram contra essa barbárie. Mas, como regra geral, é muito importante ter bastante cuidado com os nossos desejos tirânicos de praticar a censura ao outro, podemos nos encontrar involuntariamente no mesmo campo do conservadorismo de direita mais tosco, que foi tanto criticado nos desfiles das escolas de samba desse ano, em especial pela Tuiuti e pela Mangueira.


Rafael Rossi